Há uma espécie de advocacia que não quer apenas defender o cliente. Quer vencer a lógica no grito.
A parte deve. Não paga. O credor executa. O devedor impugna. A Contadoria calcula. O valor dá maior do que o cobrado. Qualquer pessoa com alguma intimidade com números concluiria o óbvio, não havia excesso.
Mas a advocacia insolente não se curva a esse tipo de grosseria aritmética.
Ela ajeita a gravata, cita três julgados, chama a derrota de causalidade e pede honorários por uma impugnação que não reduziu um centavo da dívida.
É quase bonito, se fosse teatro. Como Direito, é só fumaça.
O método é antigo. Quando o fato não ajuda, discute-se o índice. Quando o índice não salva, discute-se a metodologia. Quando a metodologia afunda, discute-se a causalidade. Quando nada mais resta, acusa-se o credor de tumultuar o processo por ter cometido a ousadia de querer receber.
A dívida, nessa dramaturgia, vira detalhe. O protagonista é sempre o sofrimento do devedor ao ser cobrado.
É uma inversão curiosa, quem não paga posa de vítima; quem cobra vira inconveniente; quem impugna sem proveito econômico pede honorários; e quem tem razão precisa respirar fundo para não transformar o processo num circo.
Aqui entra a recomendação de colega para colega, nem todo absurdo merece protocolo.
Há peças que foram feitas para irritar. Não para convencer. Respondê-las no calor do sangue pode dar a elas exatamente o que procuram, palco, ruído, atraso e mais uma rodada de papel inútil.
O processo já tem sofrimento suficiente sem que o advogado, ofendido pela insolência alheia, ajude o devedor a fabricar tumulto.
Às vezes, a melhor resposta é nenhuma.
Não por covardia. Por estratégia.
O advogado precisa saber a diferença entre indignação legítima e impulso útil. A primeira dá vontade de escrever quinze páginas. O segundo manda fechar o notebook, tomar um café e esperar o juiz decidir.
Porque há uma armadilha na advocacia insolente, ela convida o adversário a sair do ponto central.
E o ponto central costuma ser simples..
Todo o resto é fumaça.
Fumaça com timbre de escritório. Fumaça com jurisprudência fora do lugar. Fumaça com pedido final em negrito.
Mas fumaça.
O bom advogado não é aquele que responde a todo desaforo. É aquele que percebe quando o desaforo é só uma isca.
Há momentos em que a peça adversa é tão ruim, tão torta, tão cheia de pose e tão pobre de substância, que a vontade natural é protocolar uma resposta com o veneno cuidadosamente dosado. Uma pequena obra de arte da acidez forense. Um míssil elegante.
Mas aí vem a parte adulta da profissão e sussurra: “não dê movimento ao que nasceu para atrasar”.
A advocacia combativa é necessária. A advocacia insolente, não. Uma defende. A outra dramatiza. Uma enfrenta o mérito. A outra cria fumaça. Uma quer resolver. A outra tenta transformar a própria derrota em honorários.
